terça-feira, 12 de abril de 2011

Conto: Do medo

Foi como uma bomba. Não havia lógica, apenas confusão. Eu não conseguia processar o que estava acontecendo diante dos meus olhos. Meu mundo não era mais o mesmo.



Quando acordei, havia várias pessoas em meu quarto, que na verdade não era meu quarto. Pelo menos não se parecia em nada com o quarto onde eu havia entrado na noite anterior e a cama definitivamente não poderia ser a mesma, confortável demais.

Quando me ergui, vi todas aquelas pessoas andando para lá e para cá como formigas em seu trabalho incansável. Eu não conseguia entender o que estava acontecendo e tudo parecia meio deslocado, ou então eu estava deslocado ali.

A verdade, contudo, é que eu não sabia o que estava acontecendo, nem onde estava e tinha certeza que não conhecia aquelas pessoas.

- O que está havendo? – Me forcei a perguntar, sentindo um gosto ruim na boca, como se tivesse comido um quilo de areia.
- Estamos organizando suas malas, a viagem de hoje é muito importante, afinal as participações nas bienais nos Estados Unidos, na Inglaterra e na Alemanha são as maiores de sua vida. Levante-se!

Eu estava em choque. A resposta veio da pessoa mais improvável. Meu pai. Era o meu pai.

Você me pergunta por que o choque, e eu lhe respondo: meu pai morreu quando eu tinha 10 anos de idade. Foi uma das piores épocas de toda minha vida, dias cheios de escuridão e dor. Ele era meu companheiro em tudo, especialmente nas minhas incursões iniciais na arte ingrata da escrita. Depois que ele morreu, decidi continuar a escrever, mas definitivamente enterrei o sonho de ser um autor com obras publicadas pelo país e pelo mundo. Sem meu pai, eu não conseguia encontrar um sentido em escrever para os outros porque eu sempre escrevi para ele. E assim permaneci.

Tenho certeza que estou aqui com os meus 37 anos, só que tudo está diferente. Não entendo o que está havendo, provavelmente é algum delírio da minha imaginação fértil, já que me lembro de que estava em plena produção na noite anterior. Pena que o cansaço me venceu e eu tive de me atirar na cama.

- Vamos filho, levante-se, você ainda tem uma coletiva antes de partirmos para Nova Iorque.
- Pai! – Me levante em um sem pulo. Abracei-o tão forte que ele reclamou que não conseguia respirar. Afrouxei o abraço, mas não o deixei, a sensação de poder estar com ele era boa demais para ser verdade.
- Ok, eu sei que você me ama, mas não precisa ficar demonstrando isso na frente de todo mundo. Agora vá tomar um banho, sua mãe e sua irmã estão a nossa espera lá embaixo.

Instintivamente me dirigi ao banheiro no fim do corredor, mesmo sabendo, sem saber como claro, que havia um no meu quarto. Abri a porta e fiquei um minuto inteiro extasiado com aquela visão sublime.

Desde pequeno, acostumei-me com as coisas simples, já que meus pais não tinham muitas condições de manter uma casa com luxos, mesmo que fossem poucos. Não reclamava e até achava positivo, porque assim eu não via o mundo como um lugar de facilidade. Meu pai me lembrava, sempre que podia, de que eu deveria estar disposto a enfrentar todo tipo de desafio se quisesse ser alguém na vida. Normalmente eu achava aquele papo a coisa mais clichê do mundo, mas não posso negar que aquele conselho me ajudou várias vezes, especialmente nos primeiros anos depois da morte dele.

Por isso, eu fiquei impressionado com o luxo e ostentação daquele banheiro. Não vou descrevê-lo, mas imagine-o, caro leitor, como algo tão surreal quanto sua imaginação possa construí-lo. Fiquei até meio sem graça de molhar aquele chão tão limpo e encharcar aquelas paredes brilhantes, mas eu tinha de me apressar, mesmo sem saber o porquê.

- Carlos, você já terminou? Precisamos descer.
- Já vou pai, só falta eu passar a loção.
- Estou aqui fora, vamos descer juntos, ok?
- Sim!

Não vou mentir, estava eufórico com a presença do meu pai. Parecia que eu havia reencontrado toda a felicidade que se perdeu quando ele morreu naquela tarde quente de janeiro. Só que ao mesmo tempo, permaneci completamente suspenso, como se estivesse em um sonho ou em algum tipo de realidade inventada, porque nada ali fazia sentido.

Quando saí do banheiro, duas pessoas entraram logo em seguida e em questão de um minuto deixaram tudo como antes. O que meu pai chamava de equipe, era um grupo de, no mínimo, 10 pessoas que andavam por toda a parte, subindo e descendo as escadas, carregando malas e me oferecendo coisas que não queria.

- Vamos! – Meu pai tocou o meu braço e o acompanhei.

A casa. Aquela casa em nada lembrava a casa onde eu havia entrado na noite anterior. Meio claustrofóbica, mas sempre acolhedora, especialmente quando minha mãe me recebia.

Eu parecia um menino contemplando aquela imensidão infinita, repleta de cores claras e tecnologia. Uma elegância estranha, mas convidativa. Mais uma vez senti-me deslocado e agora um incômodo começava a queimar no meu peito.

Aquela não era minha vida.

- As malas já estão nos carros e segundo o planejamento, estamos 5 minutos adiantados em relação ao horário previamente acordado, senhor.
- Obrigado, Maurício! Vai ser bom chegar um pouco antes no aeroporto. A coletiva promete ser concorrida, como sempre.

O tom meio desdenhoso na voz do meu pai me pegou de surpresa. Havia nele um quê de absurdo, se é que posso dizer isso. Senti um distanciamento enorme naquele instante e comecei a pensar que aquele homem ao meu lado não poderia ser meu pai, o cara que me ajudou a ser quem eu era. Se é que eu ainda era quem eu pensava ser.

Isso é confuso – pensei – preciso entender o que está acontecendo.

O relógio grande pendurado na parede da sala marcava 10:50 da manhã. O número de pessoas era maior ainda e havia quatro carros do lado de fora, daquelas SVUs enormes que você vê nos filmes americanos. Em um deles, três crianças “brincavam” com o motorista, que tinha cara de poucos amigos. Em outro, uma senhora muito velha e uma outra mulher conversavam animadamente, sorrindo sempre que podiam. No terceiro carro, estava minha irmã, a quem eu não via há mais de sete anos. Meu coração se inflou de alegria, algo ali estava certo, enfim? Por fim, o quarto carro estava vazio. Talvez seja o meu, pensei.

- Carlos, o que há com você? Vamos logo, temos muito o que fazer antes do embarque.

Desci as escadas correndo. O incômodo no meu peito crescia a cada instante, era como se fosse um anticorpo querendo combater essa loucura que eu estava vivendo.

Eu e meu pai entramos no último carro. Ele foi ao volante, sentei-me ao seu lado e a mamãe estava no banco de trás.

- Esses dias no exterior serão decisivos para a sua carreira internacional.
- Claro.
- E depois disso talvez consigamos algum contrato para produção de filmes baseados nos seus livros. Tenho certeza que serão um grande sucesso.

Não respondi. Senti-me vazio ao ouvir aquelas palavras. Meu pai jamais falaria aquelas coisas para mim. Todas as vezes que conversamos quando eu dizia a ele que queria ser um escritor, meu pai foi firme ao dizer que eu não deveria ser só um escritor. Ele dizia que eu deveria ser um contador de histórias, alguém que daria às pessoas a oportunidade de se afastar de seus problemas e mergulhar em mundo onde a fantasia seria um remédio para suas dores. Meu pai, acho, era um romântico do tipo que acreditava que a gente podia ser tudo que quisesse conquanto que fosse de coração.

Não vou mentir, carrego essa convicção comigo, mas em uma escala infinitamente menor, afinal os desgostos e a frustração de não ter conseguido ser um escritor como ele queria, acabaram por mata-lo, no que o médico classificou como um caso típico de desistência da vida. Não havia mais o que ser feito se ele não queria mais viver. Desde então, eu enterrei meu sonho e mantive minha alma atrelada às palavras apenas para mim mesmo. Não poderia dividir nada com ninguém porque tinha medo de ter o mesmo fim que o meu pai.
Suspirei profundamente e olhei para o homem ao meu lado. Não havia sinal de frustração ou insatisfação no rosto moreno e bem cuidado. Ele conversava animadamente e me passava uma confiança que eu não conhecia.

Aquela não era minha vida.

O tempo passou rápido e logo estava sentado em uma mesa larga e comprida, cheia de microfones e gravadores. Flashes me cegavam e a insistência no grito do que eu assumia serem fãs começava a me irritar.

Eu nunca gostei de badalações.

- Carlos, aqui, Diário da Manhã, por favor?
- Sim, pergunte!
- Qual a perspectiva para essa viagem? Quais os planos para os dois meses de divulgação dos seus livros?
- Bem, eu...
- Segundo as datas que a nossa editora nos passou, ficaremos 25 dias nos Estados Unidos, 20 dias na Inglaterra e mais 20 dias na Alemanha. Nesse período, serão duas bienais e uma feira anual de livros. A expectativa é que possamos conseguir alguns contratos a mais para tradução da obra em outras línguas além das outras 40.

Eu não respondi mais nada. Nem respondi, na verdade. Fiquei quieto, olhando aquela agitação toda, aquela sede por informação e o olhar faminto dos jornalistas e dos fãs para mim. Senti-me profundamente incomodado com aquela entrevista, com as pessoas, com tudo.

Por que isto estava acontecendo comigo?

Quando entrei no avião, primeira classe totalmente reservada para minha família, vale dizer, sentei-me, fechei os olhos e tentei dormir para ver se eu conseguia acordar na minha vida novamente.

- Filho, o que você tem?
- Não sei.
- Não sabe?
- Não.
- Você está estranho desde cedo.
- É, eu sei pai.
- Você quer conversar?
- No momento não, obrigado.
- Tudo bem.

Senti que talvez tivesse magoado aquele homem, que pela primeira vez parecia ter uma semelhança com o meu pai, mas ainda assim não era ele.

A única escala do nosso voo seria em Caracas e depois 9 horas até Nova Iorque. Que tédio.

Na chegada, mais jornalistas e alguns fãs. Eu sabia que aquela não poderia ser a minha vida, mas a curiosidade começava a me consumir.

- Pai, o que está acontecendo?
- O que você quer dizer com isso? – Respirei fundo. Eu poderia usufruir dessa vida e ter tudo que eu sempre quis, mas eu nunca gostei das coisas fáceis.
- Ontem à noite eu fui dormir e minha cama era de mogno e tinha várias partes lascadas e arranhadas. Meu computador era velho e vivia me matando de raiva. Meu guarda-roupa antigo, mas bem conservado. O colchão era simples e as cobertas ralas. Acordei e encontrei essa vida que eu não sei se é minha.
- Que loucura é essa filho? Será que você teve um sonho que pode se tornar em uma boa história?
- Será que eu falei grego? – Perguntei exasperado, elevando meu tom de voz. O carro contornou a esquina e uns 50 metros adiante estava o hotel Hilton.
- Você me respeita rapaz, eu sou seu pai.
- Se você é meu pai, como teve coragem de me trazer para esse mundo?
- Do que está falando?
- Eu li um livro meu e sinto vergonha daquilo.
- Seus livros são bons.
- Não, eles não são bons. Eles são ... desprezíveis. Eu não queria ser isso que sou aqui. Aquele Histórias de uma manhã perdida é a maior piada do mundo. Como é possível as pessoas gostarem daquilo?
- Sério que você acha isso?
- Sim!
- Engraçado é que você não pensava isso quando lançou o livro.
- Mas eu não...
- Não o quê?
- Você... eu... Você não é meu pai. Essa não é minha vida.
- Enfim!
- Enfim o quê? Você é meu pai? Essa é a minha vida? Por que não me lembro de nada e...
- É óbvio que essa não é sua vida. E provavelmente quando você dormir, vai acordar na sua vidinha medíocre e perceber que este aqui foi apenas um sonho ou pesadelo, não sei como vai interpretar. Um sonho de fama e riqueza que você não consegue mais repreender. Deixe de ser covarde e faça algo pela sua vida, moleque.
- Não fale assim comigo!
- Eu falo com você como eu bem entender, garoto. Eu posso não ser o seu pai, mas sou eu quem te fez passar por isso. Eu estou aí dentro da sua cabeça. É tudo vívido, real, palpável aqui porque é isso que você quer. Porque você sabe que pode chegar aqui. Essa é uma vida que você pode ter, mas se recusa por uma bobagem.
- Não é bobagem. Meus motivos são os mais nobres. E eu tenho medo.
- De acabar como o papai.
- Dobre a sua língua quando falar dele.
- Cale-se! Não sou eu quem está falando, é você seu idiota! Eu sou uma projeção da sua consciência e de tudo que você esconde aí na sua cabeça.
- Não pode ser, eu jamais falaria isso. Claro que tenho medo, mas...
- Você tem medo de fracassar porque é um fraco. E continuará a ser um fraco enquanto achar que não deve usar o seu talento para o seu próprio bem.
- Pare com isso.
- Você não pode mais se torturar e viver essa vida cheia de privações que você tem. Seu pai reconheceu o seu talento desde cedo e você vem tentando matá-lo desde o dia em que ele morreu, mas isso não é o suficiente. Você é um contador de histórias, garoto. Seu pai sabia disso desde o primeiro conto que você escreveu para ele.
- Mas ele nunca...
- Nunca te disse isso porque provavelmente não queria que você crescesse achando que deveria ser um escritor. Ele cultivou a certeza e você abraçou o destino. Não o recuse mais.

Ele parou o carro e descemos. Entrei correndo e subi logo para o quarto. Por algum motivo, eu sabia em que lugar ir.

Entrei no banheiro e me olhei no espelho. Ali, o meu reflexo era outro. Meu rosto era carrancudo e cheio de rancor. Havia ódio no olhar e o sorrisinho que apareceu era de desprezo e nojo.

- Perdedor! – O meu reflexo gritou para mim e no instante seguinte o espelho se partiu em vários pedaços. Cortei-me, mas não havia sangue.

Fiquei desesperado porque sabia que estava preso dentro de um sonho que não podia ser meu. Eu não podia ser tão mesquinho!

- Não há ferimento onde não há sangue.
- Como entrou aqui?
- Você me trouxe aqui.
- Saia!
- Admita, você precisava disso.
- Pare!
- Vai continuar a ser um perdedor.
- Cale-se!
- A solução, às vezes, está na admissão. Depois disso, você vai viver bem.
- Não!
- Lembre-se, não sou eu quem está falando. É você!

A janela do quarto era grande e a visão da cidade estonteante, mas o desespero que tomou conta de mim me fez ignorar por completo tudo que estava a minha volta. Eu tentava silenciar a voz que me atormentava, mas eu continuava a ouvi-la resmungar impropérios para um covarde que seria sempre um perdedor porque era medroso demais para admitir o que sempre quis.

- Não faça por dinheiro. O reconhecimento é consequência. Conte histórias apenas.
- Pai?
- Não me decepcione. Não seja um covarde. Não repita os meus erros.
- Por favor.
- O vidro é frágil.

Olhei para a figura alta e esbelta ao meu lado. A feição bonita de antes foi substituída por um rosto cheio de rugas e um olhar indecifrável.

- Vá!

Sem pensar, corri. O vidro se despedaçou e eu caí. Vi o mundo se distanciar de mim. O olhar daquela figura cintilou mais uma vez antes de eu alcançar o chão.

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- Não! Pare! Pare!
- Filho, acorde! Carlos!

O quarto estava escuro e no afã de saber onde estava, uma farpa entrou no meu dedo. Era minha cama velha.

- O que houve?
- Sonho ruim mãe, só isso.
- Tem certeza? Eu estou aqui tentando te acordar há uns cinco minutos. Já estava pensando que você tinha enlouquecido ou algo assim.
- Não, pode ficar tranquila, foi só um sonho ruim.
- Tudo bem, então. Mas se precisar de mim, é só me chamar.
- Obrigado, mãe!
- Boa noite, filho!

3 comentários:

soliloquioadois disse...

Um thriller metalinguístico, ora vejam só! Passei boa parte da leitura ansiosa, tentando descobrir o que estava acontecendo com o Carlos. E me identificando com ele, sabendo exatamente o que é sentir o que ele sente. Principalmente porque sempre estamos com aquele dilema de: ou servir à Arte ou sermos famosos. Como se não houvesse modo de conseguir conciliar as duas coisas.
E a angústia dele em escrever o que agradava o pai, e depois se sentir sem chão por causa disso...

E o ponto que mais me encantou no conto foi a distinção entre ser "um contador de histórias" e um "escritor". Parece a mesma coisa, mas são diferenças sutis. Às vezes eu fico com aquela sensação de que a pressão em ser um "escritor" acaba tirando muito da magia e da espontaneidade do ato (sublime) de escrever.

/prolixa.

Adorei o conto, você bem sabe disso, né Cara Calipso.

E que venham mais, contadora de histórias. <3

Jorge Leberg disse...

Vou salvar esse conto para ler depois, quando tiver tempo de sobra. Parece que é de fato muito bom.

Aliás, depois convido-vos a ler uns contos meus no Cadernos Avulsos. Postarei uns antigos, de pouca qualidade literária mas já prenunciando o que eu seria hoje, rs, e uns atuais que nunca cheguei a digitar. Mas lá já tem (pseudo)poemas. Abração!

Jorge Leberg disse...

Ah, propagandear o Cadernos Avulsos, textos confessionais e (pseudo)literários de minha autoria:

http://intimisms.tumblr.com