quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Conto: O menino que colecionava palavras

O menino que colecionava palavras
Will – como foi apelidado pelo irmão mais velho que não sabia pronunciar William direito – ainda era um bebê quando a mãe notou que ele seria uma criança diferente.


Quando estava cansado ou com sono, cantarolar para fazê-lo dormir não funcionava: a única coisa que conseguia acalmá-lo era conversar com ele, sussurrar-lhe palavras calidamente. Will ficava preso nas palavras da mãe, como se estivesse sob hipnose – não importando se era um conto de fadas ou apenas a fofoca narrada pela vizinha na tarde anterior.

Quando Will começou a balbuciar as primeiras palavras, a mãe não teve mais sossego, pois começou um sem-fim de perguntas. Will queria saber o nome de tudo ao seu redor e ficava maravilhado ao repetir e sentir o som das palavras, como se fizessem cócegas em sua língua. Aos 6 anos, ao entrar na escola, a mãe achou que fosse ter paz, pois normalmente as crianças ficavam menos empolgadas ao serem submetidas à disciplina pedagógica. Mas com o seu caçula foi diferente. Ter o conhecimento de que aqueles sons maravilhosos e que continham o Universo podiam ser desenhados em letras engraçadas era fantástico. Como ter um álbum de figurinhas e poder colecionar as suas favoritas, organizá-las do jeito que quisesse. E a coleção de palavras que Will começou a fazer enquanto era ainda muito jovem foi crescendo e se expandindo e aos poucos começou a tomar espaço nas prateleiras do diminuto quarto que dividia com o irmão mais velho, para desespero da mãe.

Aos 15 anos o seu hobby se tornou uma atividade cheia de dificuldades. Aos poucos os livros foram sendo tirados das bibliotecas e substituídos pelas cartilhas desenvolvidas pelo Ministério. Encontrar um dos antigos livros infantis de sua época era tarefa que demandava esforço e bons contatos. Para que os demais tipos de literatura também começassem a desaparecer ou se tornarem de difícil acesso não demorou muito - para desespero de Will.

Foi quando ele chegou à decisão que, embora não existissem mais tantos livros quanto antes, não significava que elas, as suas amadas palavras, não existissem mais. Pois existiam, estavam bem guardadas na sua memória – quase podia ouvir uma voz sussurrar em sua mente a lista quase infinita que era o que chamava de “sua coleção”. E com medo de perdê-las, começou a anotá-las em um velho caderninho que conseguiu comprar num antiquário - Will economizara um bocado para conseguir aquele artefato cada vez mais raro. E eram palavras ora suaves, cheias de romantismo e preces a Deus, ora duras e carregadas de revolta contra o poder que o privara de suas companheiras.

Nem sempre as palavras ficavam presas no reino da escrita: Will não conseguia refrear a quantidade de discursos contra aquele poder ditatorial e achava que seria egoísmo esconder sua coleção do mundo, onde era mais necessária. Esse foi um dos seus últimos atos antes de desaparecer, sem deixar rastros físicos, exceto pelo caderno enterrado muito fundo no quintal de casa, cujo esconderijo só era de conhecimento da sempre zelosa mãe e que seria para sempre o seu tesouro mais valioso.



4 comentários:

Autores Anônimos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Betynha disse...

Esse conto é uma graça!

Na verdade, é mais uma maneira diferente de a gente ver que as palavras, sobretudo, fazem parte da nossa vida em níveis que a gente sequer pode imaginar.

E a resistência do Will à substituição do papel mostra bem como a gente não pode esquecer como as palavras chegaram até nós, porque não há aparelho eletrônico que substitua uma folha de papel em branco, pronta para ser preenchida de ideias. Não há nada como uma página repletas de palavras, viagens, ideias, histórias...

Boas companheiras essas palavras, né?

PS.: O finzinho do conto é emblemático. A palavra é sinônimo de libertação, escrita ou não ela existe para ser propagada e o fim do Will acaba provando que elas, de certa maneira, são perigosas também.

Jorge Leberg disse...

A Betynha já comentou muito bem a respeito do conto, inclusive tirou algumas palavras da minha boca, hehe.

Só quero atentar, então, à faceta política existente no conto, bem mais que nas entrelinhas. A repressão (e consequentemente opressão, pois toda repressão social e/ou política, portanto a nível coletivo, implica numa opressão psicológica, a nível individual, ou estarei distinguindo muito artifialmente ambos os conceitos?) sofrida por Will me remeteu, embora seja de proporção diferente e incidindo no personagem particularmente em relação à provocação na qual consistia sua escrita e a persistência em continuar escrevendo, à sofrida por Winston em 1984, do George Orwell. Você se inspirou um pouco em Orwell, aliás? Abração!

Jorge Leberg disse...

Inclusive, este conto suscita reflexões sobre o próprio ato da escrita e por que ele é uma necessidade quase ou praticamente vital para muitos (como eu). Ou seja, também é fortemente metalinguístico.